domingo, 18 de outubro de 2009

A Comarca de Biguaçu/SC respira cultura


A 1ª Felimote – Feira do Livro e Mostra de Teatro da Comarca de Biguaçu; o nascimento de um jornal de literário; a inauguração da Casa de Cultura de Biguaçu; e o lançamento de um livro que reúne elementos regionalistas – reinventando o linguajar do caboclo-praiano… Tudo isso eu presenciei, e na companhia de amigos, participei. Não repetirei as palavras publicadas no blog do LITTERA, mas devo acrescentar, para o público desse nosso blog, que foram momentos mágicos os vividos nesses dias. A atitude corajosa dos amigos Marcos Antonio da Silva, o Marquinho do Doca, e Adilson Arruda da Escolinha de Futebol Pró-Foot, na idealização e organização da 1ª Feira do Livro e Mostra de Teatro da Comarca de Biguaçu; O empenho da equipe do Jornal Littera – um despertar literário; O renascimento do Casarão Born, como Casa da Cultura de Biguaçu, num trabalho continuado entre administrações municipais, familiares dos Born, e de pessoas como Ana Lúcia Coutinho, Salim Miguel, Iaponam Soares, e Dalvina de Jesus Siqueira, entre outros; a presença incansável na representação da Academia de Letras de Biguaçu por meio do Presidente Joaquim Gonçalves dos Santos; e em Governador Celso Ramos, o lançamento da obra Saragaço, da escritora Antonieta Mercês da Silva. Tive a honra e a oportunidade de subir ao palco algumas vezes, e de lá, declamar poesias e contar fábulas. Presenciei a declamação do poeta Celso João de Souza; a cantoria de capoeira do Mestre Tuti (Fernando Bueno) e Corcel; a apresentação de Angela Escudeiro e seu boneco do Ceará; a contação de estórias de Inês Lohn, a apresentação dos músicos de Tubas e Eufônios, e diversas outras atividades. Isso tudo se deu em Biguaçu. Em Ganchos, a escritora Antonieta Mercês lançou seu “Saragaço” – livro que tem prefácio de Ana Lúcia Coutinho – e que, reinventa o nosso linguajar cabloco-praiano, o nosso falar arrastado, e relembra nossas origens luso-açorianas.

Foto: Professor e Historiador Joaquim Gonçalves do Santos, Presidente da Academia de Letras de Biguaçu, lendo o LITTERA durante a Feira do Livro

domingo, 30 de agosto de 2009

Antologia Alvorada de Inverno é lançada com presença gancheira


A Associação dos Escritores dos Municípios da Região da Grande Florianópolis lançou a Antologia Alvorada de Inverno, sábado, 29 de agosto, na Câmara Municipal de Vereadores em Canelinha/SC.

O evento cultural reuniu poetas, escritores, atores, e músicos, políticos e admiradores das artes. De acordo com o presidente da Associação, Miguel João Simão, a Antologia deu início à articulação literária na região.

Entre autoridades políticas presentes: Antonio da Silva e Maria Salete Montibeller, Prefeito e Secretária de Educação, Cultura, Esporte e Turismo de Canelinha; Elizabete Zunino Boos e Círia Zunino, Secretária de Educação e Cultura e Diretora de Eventos de São João Batista; Salete Cardoso, Vereadora de Biguaçu.

Autoridades literárias, além do presidente da Associação: Fídias Teles, Presidente da Academia Paranocatarinense de Letras; Celso Leal da Veiga Junior, da Academia de Letras Tijuquense de Letras e Prefeitura de Tijucas; William Wollinger Brenuvida, Presidente da Academia de Letras de Governador Celso Ramos; Janice Marés Volpato, Presidente do Instituto de Parapsicologia Pedro Grisa; Osvaldo Henrique Hack, Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie; Valdir Gomes, Presidente da Academia de Letras de Canelinha; Dorothy Steil, da Academia de Letras de Blumenau e Associação dos Escritores de Blumenau.

Apresentaram-se: a Orquestra de Câmara de Tijucas, com jovens e adolescentes músicos; Janaíra Reis, poetisa que fez a saudação a Canelinha; Fídias Teles, poeta e músico; Tatiane Pasdiora, poetisa; Douglas Tedesco, ator e poeta; Neusita Luz de Azevedo Churkin, poetisa e musicista; José Honório Marques, poeta; William Wollinger Brenuvida, poeta, que também foi o mestre de cerimônias.

Registraram-se ainda as presenças dos escritores: Luiz Bastiani, Luiz Fernando Schroh, Márcia Reis, Manoel Mário Reis Bittencourt, Ivocélio Dias, Ilse Maria Paulino Gomes, Naza Poeta, Maria do Carmo Tridapalli Facchini, Tiago Nilson da Silva, Morgana Fuchter Koerich, e alunos da Escola Abel Capella que se iniciam na arte da poesia.

O plenário da Câmara de Vereadores ficou lotado. Houve sessão de fotografias, serviu-se farto coquetel aos presentes.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Jornalista desatento põe a culpa na capivara: acidente de trânsito deixa vítima fatal

O expediente eletrônico de um veículo de comunicação da capital deu a seguinte notícia: “Capivara provoca acidente na SC-410 em Governador Celso Ramos”. Desatento ou apressado, o jornalista cometeu um erro.

A colisão frontal entre dois veículos automotores, na Rodovia Estadual Francisco Wollinger (SC-410), Km 10,5, na noite de terça-feira, 18, implicou no falecimento da massoterapeuta Sueli Ayres Paulo. Os demais envolvidos no acidente restaram feridos.

Cito elementos que contribuíram para o acidente:

1) falta de sinalização da estrada

• Faltam faixas obrigatórias que dividem as pistas;
• Não existem placas indicando animais na pista;
• Não há placas indicando falta de acostamento;

2) Falta de iluminação adequada

• No trecho da via, o SAMAE instalou luminária que cega o motorista que trafega no sentido Jordão-Ganchos;

3) Falta de acostamento

• Houve espaço para o acostamento, mas a ingerência da prefeitura ao longo das décadas permitiu construções próximas da pista.

4) Visibilidade

• Noite chuvosa e/ou piso do asfalto molhado. Também o mês de agosto é caracterizado por forte nevoeiro.

5) Tentativa de desviar do objeto

• Lembro as noções de direção defensiva – hoje obrigatórias nas auto-escolas. O susto pode ter feito a motorista puxar o volante para esquerda, como uma reação básica de defesa

6) Velocidade

• Cabe avaliação técnica. A via obriga transitar a 60 km/h e muitos ignoram a regra. Está comprovado que uma colisão nessa velocidade contra um muro pode trazer danos fatais ao condutor e acompanhantes – salvo em automóveis com dispositivos de segurança mais novos.

7) Depois podem estar relacionados cansaço, estresse, inexperiência em dirigir a noite e com chuva, distrações.


A Rodovia Estadual Francisco Wollinger (SC-410) está sendo recapeada após vinte anos de asfaltamento e tendo ajustes após 89 anos de abertura (1920).

Há alguns anos o motorista de uma Van do Canto dos Ganchos salvou seus passageiros. Manteve-se na pista quando acometido de luz alta emitida do veículo em sentido contrário. Chovia e o trecho não possuía iluminação adequada. Por infelicidade um homem alcoolizado no leito da pista faleceu. Desviar a esquerda ou a direita significaria colisão frontal ou queda de metros. Decidiu o motorista proteger os passageiros sem pensar em si. Ele foi inocentado. Eu estava no veículo.

É uma pena que o jornalista tenha colocado a culpa na capivara que morreu no local. Se fosse um pedestre, sua visão antropomórfica de mundo daria a mesma notícia? Não se sabe. Foi mais feliz a jornalista Cristiane Toschi ao dar a notícia, no blog do A Cidade – Governador Celso Ramos, de forma autêntica e isenta. Preocupo-me com esses fatos, pois são nas pequenas coisas que entendemos que A humanidade está asfixiada de asfalto, concreto, máquinas e solidão. Sempre se busca um culpado pra tudo.

sábado, 8 de agosto de 2009

Baleias em Governador Celso Ramos/SC: Retorno é continuidade da luta ambiental

Em 21 de agosto de 2007, em Canto dos Ganchos, Gov. Celso Ramos/SC, moradores e pescadores avistam duas baleias na enseada que liga a Ponta do Simão a do Isidoro. Essas mesmas baleias foram avistadas na localidade de Palmas. Em 7 de agosto corrente retornam as nossas águas calmas encantando moradores, pescadores e curiosos. Posaram para nosso amigo Julio Cesar Corolo, professor e ambientalista.

A menos de 200 metros da praia podem ser baleias Francas (eubalaena australis) ou Minkes (balaenoptera bonaerensis), cabendo nas características das fotos e relatos. As Minkes são menores. Descarta-se a possibilidade de baleias Cachalotes (physeter macrocephalus) – de acordo com o professor Paulo Cesar Simões-Lopes da Universidade Federal de Santa Catarina estão a 150 km da costa. As Cachalotes, grupo dominante em nossas águas até 1850, foram quase extintas pelo comércio de óleo que abastecia cidades como Nova Iorque e Londres – Ganchos era a segunda economia do Brasil Colônia. Mamíferos grandes e inteligentes pertencem a família dos golfinhos Sotalia Fluviatilis encontrados na APA do Anhatomirim.

Temos saudade do reencontro com oceano-origem, ponto de partida e retorno – o que é evidenciado nos ensinamentos Guarani e Inca; dos Vedas; budistas; e na filosofia e prática que sustenta o Espiritismo – próximo do que pregam os cientistas quânticos e sábios hodiernos. Tal qual o corpo é a prisão da alma, a terra economicamente explorada é senão o cativeiro do homem que respira técnicas, habilidades e ordenamentos adquiridos e adaptados para sobreviver sedentário. A liberdade está no desapego.

O retorno dessas baleias é a continuidade da luta ambiental. Reforça a tese de que um corredor para grandes mamíferos precisa ser estendido a partir da Apa da Baleia Franca para além da Apa do Anhatomirim para estudar as espécies que nos visitam e respeitar seus hábitos.

A Terra clama por ajuda e há quem esteja disposto a continuar uma jornada de luz e conhecimento em sua defesa, onde o ímpeto dos destruidores será combatido e refreado!

(*) escritor-poeta.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Pra quem gosta de tainha: em maio e junho os pescadores preparam suas redes

Uma tainha aberta na brasa é uma iguaria irrecusável. Há quem prefira recheá-la com camarão, ou frutos do mar. Mas, a preferência parece ser mesmo sal a gosto, e um limãozinho galego. Seja como for, a tainha é um prato que se aprecia na mudança do outono para o inverno. Mudanças climáticas, perceptíveis, têm alterado o cenário litorâneo catarinense, mas outros aspectos para redução do número de tainhas na costa podem ser observados: poluição, pesca industrial, e pesca de indivíduos fêmeas que não conseguem desovar. A pesca da tainha exige experiência de mar, coragem pra enfrentar o frio, e camaradagem para lançar os batéis na água e puxar as redes na praia.

Localização da Praia de Palmas-Governador Celso Ramos/SC Exibir mapa ampliado

A praia de Palmas, em Governador Celso Ramos/SC, tem 2,8 km de extensão. É favorável ao arrasto da tainha porque é uma praia mista: é protegida por uma baía de longa extensão com poucas ilhas, mas também recebe influência de mar aberto. Lugar paradisíaco recebeu no domingo, 24/5, por volta das 16 horas, pescadores, moradores, e turist
as. Todos interessados na pesca da tainha. O lance não foi dos melhores se comparado aos anos anteriores, mas algumas caixas foram preenchidas e repartidas ali mesmo na praia.

De acordo com a parapsicologa Janice Mares Volpato, que frequenta a praia de Palmas há mais de 20 anos, foram pouca
s tainhas, mas um episódio de encher os olhos. Seu relato é importante: “Após cercarem o peixe, eles soltam a rede. Os pescadores iniciam a atividade de puxar a rede na expectativa de que venham muitas tainhas. Nisso chegam turistas, veranistas, e moradores da Vila de Palmas. As pessoas se misturam aos pescadores ajudando a “puxada de rede”. Depois do arrasto, os pescadores remendam as redes, limpam os peixes, e os dividem. Algumas dessas tainhas já servem para o almoço do dia. O barco que tranqüilo descansa na praia servirá para mais lances e arrastos”.

Em Governador Celso Ramos o evento pode ser observado nas praias de Palmas, Grande ou Caravelas, de Fora, Tinguá, e Cordas. Nos
anos anteriores lances maiores foram realizados.

As tainhas estão sumindo?

A tainha é da família dos mugilídeos. Pode ser encontrada no mundo inteiro, sendo apreciada pelos povos do Mediterrâneo. Na região Sul migram para desovar na costa catarinense entre os meses de maio e junho.

É cedo afirmar que a população de tainhas reduziu, muito embora, os relatos de pescadores mencionem isso. Se comparado com o lance de 2004, onde 15 mil tainhas (22,5 toneladas) foram recolhidas na Lagoinha do Leste em Florianópolis, o arrasto de Palmas é preocupante. Mas, a temporada está apenas começando, e o frio promete contribuir.

Os pescadores arte
sanais acusam a interferência da pesca industrial que cerca o peixe antes que suba ao litoral barriga-verde. Pesquisadores apontam para a pesca de indivíduos fêmeas que migram para desova (processo reprodutivo). A cada ano são menos filhotes. De acordo com o site da Funda Centro – Projeto Acqua Fórum Santa Catarina: “Um estudo do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar) mostra que oito em cada 10 fêmeas são pescadas antes da desova. Ou seja, antes de gerarem filhotes. Isso faz a espécie desaparecer lentamente.”. Resta saber que é um estudo de 2004, e não existem estudos recentes.

O mesmo site citado informa por meio do relato de um pescador artesanal que: "No tempo que o meu avô pescava aqui já teve lance de 300 toneladas", disse um pescador que participou da pescaria de ontem. "O máximo que peguei aqui foram 10 mil tainhas."

Houve um maior lance?

De acordo com o escritor Ermy Jannis, primo de meu avô, um grande de tainhas foi feito em 20 de junho de 1922 na praia da Lagoinha do Leste, em Florianópolis. “Os pescadores mais experientes davam como certo mais de 350 mil peixes”. O Jornal O Estado – hoje não mais existe – concedeu espaço a notícia acrescentando que: “A abundância do peixe foi tamanha que muitas lanchas nem mais descarregavam no mercado, seguindo para o Estreito, Praia Comprida, São José e muitos pontos do litoral fronteiro” (Tainhas a tostão. O Estado. Terça-feira, 20 de junho de 1922).

Em 30 de maio…

A praia da lagoinha presenciou, num segundo lance, 500 peixes. Já a praia da Pinheira, no município de Palhoça, trouxe para os cestos dos pescadores 3.500 unidades, algo próximo de 8 toneladas. Os eventos noticiados pela RBS TV na data de 30 de maio de 2009, reuniu centenas de pessoas.

Colaboração e fontes:

Agradecimento a amiga parapsicóloga Janice Mares Volpato que gentilmente nos cedeu depoimento e fotografias.

Embora a informação instada no site seja de 2004, ela continua sendo a realidade do litoral catarinense, e confere como fonte de pesquisa.

O livro é uma viagem a Santa Catarina de meus ancestrais. Vale a pena ler: JANNIS, Ermy. Fugindo de Constantinopla. Florianópolis: Insular, 2006. p. 166-167

O relato do jornal está no livro acima citado, mas fui verificar o original! Leiam se puderem: Tainhas a tostão. O Estado. terça-feira, 20/06/1922.

A rápida matéria permitiu a informação precisa. RBS TV. Programa exibido em 30/05/2009.

sábado, 23 de maio de 2009

A Apae e o São João Social

Nada melhor, em junho, do que uma festa de São João. Caracterizados de “jecas” ou “caipiras” incorporamos o interior, não só do Brasil, mas de nós mesmos. Para muitos: “voltamos a ser crianças”. Participei de dois “arrasta-pés”. Um deles no Centro técnico de apoio ao portador de deficiência Maria Veríssimo da Silva, localizado no coração de Calheiros, às margens da Rodovia Estadual Francisco Wollinger (SC-410) – muitos teimam, erroneamente, chamar e escrever Av. Bela Vista. A festividade teve apoio de comerciários e amigos da Apae. Reuniu alunos, pais, professores e funcionários e seus filhos. Todos pela inclusão social. Músicas, apresentações, roupas e comidas típicas. O espírito acolhedor de quem, de si, compreende o valor de um ser humano com deficiência. É sabido que a comunidade gancheira deva se integrar mais. Saber que 1% de nossa população, assim como o Estado de Santa Catarina, tem algum tipo de deficiência. Construir um mundo que possibilite o acesso àqueles com deficiência; fazer entender que não podem ser classificados como “normais ou anormais”; saber que cada indivíduo tem seu tempo/espaço na Terra; compreender acima de tudo, que um ser deficiente nunca será um produto com defeito, um castigo de Deus, um fardo pesado. Fico a pensar se houvesse perdurado os regimes autoritários: o militar brasileiro; o nazista; o stalisnista, o de franco, e de outros ditadores. Haveria como em Esparta: uma seleção, limpeza não apenas étnica, mas individual. Que mundo teríamos? Talvez um limpo em retas, e imundo na alma. Que as autoridades saibam, em todos os níveis: que o deficiente precisa sair do silêncio e do véu em que o escondem. Fazemos nossas ruas não para o povo, mas para as máquinas. Enquanto o céu ainda nos dá chuva e o mar peixes. Atualmente temos um lugar para receber deficientes em Governador Celso Ramos, fruto da insistência e entrega de alguns, mas o coração de muitos ainda está fechado. Que tal seguirmos a seguinte regra: "O Reino de Deus está dentro do coração das pessoas, e não em mansões de pedra e madeira. Parta uma madeira, e me encontrarás. Levante uma pedra, e lá estarei". (Jesus Cristo através do Evangelho apócrifo de Tomé). Compreender o excepcional é voltar a ser criança. E nem sempre precisamos estar caracterizados como pessoas simples, mas ter simplicidade dentro de nós. Eis o mistério…

(*) Escrito e publicado em 2007. (**) Fotografia: alunos regulares e da Apae juntos são todos iguais.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Travessia Ganchos de Fora-Canto dos Ganchos: observações do mar e do tempo

Governador Celso Ramos, antigo município de Ganchos, é uma península formada por diversas e pequenas baías, algumas no interior da baía de Tijucas também chamada de Baía dos Dois Ganchos ou de Tijucais. No passado alguns viajantes passaram por esses lugarejos e fizeram suas valiosas anotações. Um desses viajantes foi o navegador Genovês Sebastião Caboto, que no ano de 1530, além de aniquilar a última aldeia Guarani de Governador Celso Ramos, batizou a Baía de Tijucas de Baía de São Sebastião. O nome não pegou, mas a baía continuou a servir de remanso aos viajantes que podiam se resguardar das procelas. Uma das causas prováveis do nome Ganchos é exatamente a forma de suas pequenas baías, em formas de ganchos ou ferraduras. Mas, não apenas. Apontei outras hipóteses em estudo específico, e que, em breve estará devidamente publicado.

A Baía de Tijucas compreende quatro municípios: Governador Celso Ramos (localidades de Canto dos Ganchos, Calheiros, Ganchos do Meio e Ganchos de Fora); Tijucas (localidades de Morretes, Sul do Rio, Praça e Santa Luzia); Porto Belo e Bombinhas (baía de Zimbros). Tem seus limites entre a Ponta de Ganchos, em Governador Celso Ramos e a Ponta de Zimbros, em Bombinhas.

A pesca ainda é bem explorada, na baía e sempre conferiu a Ganchos uma fatia do mercado de pescados. Além de algumas espécies de peixes, o camarão e o marisco são comercializados além das fronteiras do Estado de Santa Catarina. A baía é visitada por golfinhos da espécie Sotalia fluviatilis, e fora visitado por duas baleias, não identificada a espécie nessa última primavera. Podem ser Francas, que estão retornando após décadas de cessação da caça desde o final da década de 70, ou mesmo do Cachalote que foi cruelmente caçado nessa região no período de 1742-1822, e num segundo período até meados de 1850. Os cachalotes chegaram a beira da extinção com o massacre de mais de 3.000 indivíduos.

O turismo começa a figurar nas últimas décadas na Baía de Tijucas, com a presença de hotéis e pousadas, e dos passeios de barco contratados aos pescadores da região, ou mesmo a empresas de turismo náutico. Mas, ainda falta uma política voltada ao turismo que atraía o visitante sem excluir o nativo.

As comunidades tradicionais dessa baía passam por transformações constantes, principalmente após a década de 80. O chamado (re)descobrimento dos Ganchos, orientado por uma bem arquitetada venda de marketing da especulação imobiliária para supervalorizar as terras de um dos lugares mais preservados, em termo de Mata Atlântica, do Estado de Santa Catarina, utilizou a bandeira da Farra da Boi, como uma caça as bruxas ao modo de vida simples e rústico da cidade. O poder da mídia, aliado a uniformização de valores culturais, e praticamente sua estagnação por meio de algumas seitas e religiões que alienam as pessoas ao invés de mostrar diversos caminhos, fez com que o lugar caísse num vazio, numa terra desorganizada, sem princípios e valores que amarrassem sua história as necessidades de proteção da natureza e da vida. Aquele que promete a vida não é o mesmo que se preocupe com ela. A vida não passa de uma metáfora, para garantir o status social de um grupo de privilegiados.

Travessia Ganchos de Fora–Canto dos Ganchos

Passei na casa de meu amigo Rafael, que tem sua oficina de pranchas de surfe na comunidade de Ganchos de Fora, e atende pela denominação Trips. Rafael que mora pertinho do amigo Fernando, foram eles juntamente com outros jovens daquela comunidade responsáveis pela maior e mais planejada resistência aos interesses da especulação imobiliária da história de Ganchos. Ao lado desses dois amigos organizamos um Lual, em dezembro de 2007, como jamais visto na história da cidade e estamos todos organizando para 10 de fevereiro um campeonato de surfe entre duas associações devidamente registradas, que tem o surfe como bandeira e a proteção da natureza como extensão de suas lutas.

Parti da Praia de Ganchos de Fora eram vinte para as quatro da tarde. O vento já dobrava pra sul, mas eu não podia recuar. Atravessar aquela praia até que foi fácil. O que viria depois? Nunca houvera feito aquela travessia antes e estava receoso com algumas ondas mais intensas. Eu estava distante poucos metros da Ponta de Ganchos, aquela que limita a Baía de Tijucas, e rumando a noroeste eu estaria em breve em casa, duas comunidades depois. O primeiro passo, ou remadas era cruzar a ponta de Ganchos de Fora cruzando por dentro da pequena ilha que do Ponta dos Ganchos Exclusive Resort. Poderia ter passado por fora, mas quis aproveitar as águas mansas e a proteção daquele canal raso. Estava quase em Ganchos do Meio, a sede do município, quando avistei uma pequena praia, onde se tem acesso apenas por mar, visto que por terra existe uma propriedade particular. Parei uns minutos lá e segui viagem.

Mapa do trajeto marítimo realizado pelo autor com seu caiaque...

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Bordejando a costa de Ganchos lembrei de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira dos pescadores, e que tem uma Igreja edificada num terreno doado em 1883 por Eduardo Fernandes de Souza em Ganchos do Meio, e que teve sua primeira missa em 1889. É possível avistar a Igreja do mar, construída no alto do Morro do Pinheiro, em estilo de uma barca. Esta igreja fora construída em 1983 e substituiu a antiga capela que começou a ser construída em 1884. Lembrei das histórias de minha avó sobre o mar, e das conversas com os pescadores mais antigos do lugar, de como eles se valiam das baías para vencerem, numa lancha a remos, com cinco ou seis homens, o mal tempo. Épocas difíceis para esses valorosos homens do mar, onde estão escritos os nomes de meus antepassados de origem açoriana e gancheira. Para constar um dado importante aqui: os peixes de Ganchos eram salgados em varais nas praias, e depois eram levados em lanchas até as cidades de Tijucas, Porto Belo, Itajaí e São Francisco do Sul. Os pescadores de Ganchos eram conhecidos no litoral norte de São Paulo como os melhores pescadores e navegadores do Brasil.

Adentrei a Baía de Ganchos do Meio. É um bom ancoradouro onde barcos de pesca maiores estão atracados. Geralmente barcos que vão buscar a sardinha nas proximidades, sempre voltando no claro (em referência a lua cheia). Da mesma forma que Ganchos de Fora e Canto dos Ganchos, exceto Calheiros, essa vila data de 1747, com povoamento anterior a chegada dos açorianos, um povoamento de poucos vicentistas que estavam por ordem do governo da Capitania de Santa Catarina ocupando essas terras longínquas. O Arraial de Ganchos ascendeu a Distrito em 1914 e a município em 1963, tendo o nome mudado em 1967, numa atitude de desrespeito a sua história. O sol me queimava o rosto e eu estava cansado. Poderia ter cruzado direto rumo a Calheiros, mas busquei parar na praia do antigo Porto de Ganchos, edificado na segunda metade do século XIX, e hoje esquecido. Ganchos têm trapiches ainda, espalhados pela costa da pequena e calma baía. Conversei com alguns pescadores que me deram uma rota melhor, em razão do vento. Parti para localidade de Calheiros, observando uma trovoada se formando ao sul e outra na enseada de Zimbros.

Calheiros é uma comunidade encravada nos vales do Morro do Pico ou dos Ganchos, morro esse batizado de Gigante Adormecido pelo meu tio-avô Valmor Wollinger, falecido, e pelo professor Belarmino Hipólito de Azevedo, descendente de Madeirenses e que completará 101 anos em breve. O Morro do Pico, que o falar rápido dos viventes daqui transformou em “Pique”, e que pode ser chamado de Morro dos Ganchos é o mais alto com 620 metros. A palavra calheiros não existe no português, o mais próximo que encontraremos é “calhe” que vem dos espanhol calle, e quer dizer: rua estreita, viela. Ao passar por uma antiga fábrica de salgar peixes, resolvi entrar na praia de Calheiros e pedir um pouco de água. Aportei do lado esquerdo do trapiche da antiga Marinha de Ganchos, hoje uma extensão do Iate Clube Caiobá. Ganhei uma garrafinha de água de uma senhora e uma moça que trabalham no Iate Clube. Descansei um pouco, agradeci e parti para Canto dos Ganchos.

Ao atravessar a Ponta de Calheiros para Canto dos Ganchos, o trecho mais difícil porque era o momento em que as ondulações eram maiores, e onde eu estaria completamente sozinho por mais tempo, ainda encontrei um senhor de Ganchos do Meio arrumando suas bóias da marisqueira. Conversamos rapidamente sobre a posição do vento e segui adiante. Estava cansado. Há muito tempo eu não fazia um esforço tão grande. Minhas atividades ambientais transplantando árvores nos morros acostumaram os músculos aos braços fortes. Sou um jovem de estatura mediana, não sou muito forte, mas a tenacidade e a teimosia me acompanham: características de meus antigos. Pensei em momentos, em parar em umas prainhas onde residem amigos, mas como havia muitas pedras naqueles costões, e como queria logo chegar em casa, tratei de remar mais forte. Ao passar a antiga praia onde morava o seu Eloi Oliveira, hoje pertencente a Marcelo Blaya Perez, pude observar as construções da localidade de Canto dos Ganchos. Senti-me reconfortado. Estava em casa.

Bordejei pelo costão mesmo com vento contrário, e vi um trinta réis ou martim pescador passar rente ao caiaque, no meu lado esquerdo. Observei mais Biguás e Gaivotas, e aportei na Praia do Cabral, onde os antigos diziam enxergar luzes a noite em épocas em que a luz elétrica era conhecida apenas por poucos moradores do lugar. A energia elétrica apenas chegou a Ganchos em 1967, mas os senhores Francisco Wollinger, meu bisavô, e o senhor Francisco Oliveira, seu Mané Chico, possuíam em suas residências energia elétrica. Na fazenda do meu bisavô a energia era aproveitada a partir da força da água da cachoeira, do hoje Rio Wollinger que abastecia o engenho de moenda da farinha e do arroz. A Fazenda Santa Terezinha, que seria conhecida como Miramar nos anos que se seguiram aos trabalhos de abertura da atual Rodovia Francisco Wollinger (SC-410), tinha também na década de 1920, banheiro interno e uma estrutura de fossa séptica, algo raro pra época naqueles Ganchos esquecido do mundo; na chácara do Seu Mané Chico, pessoa valorosa que viveu em Canto dos Ganchos, a energia elétrica era obtida por meio da força do vento. Era um processo rudimentar, mas que para época servia de auxílio em noites muito escuras. Na praia do Cabral verifiquei se havia água no caiaque, descansei um pouco e segui para casa. Cruzei as pequenas praias, por meio das duas ilhotas de Canto dos Ganchos, sempre aproveitando a proteção ou defesa natural. Minutos depois estava na frente do rancho de minha casa. Ainda fiz uma volta na frente do campo de futebol de areia e o vento sul jogou água dentro da embarcação. Bem puxei o caiaque e a trovoada caiu.

Considerações da Travessia: Pontos negativos e positivos

Dos pontos negativos que observei estará aquilo que mais reclamo nesses 10 anos que vivo em Ganchos: as saídas de esgotos; as embalagens plásticas e o óleo das embarcações na água. O que poderia ser evitado para bem de todos que moram nesse paraíso.

Dos pontos positivos cito as espécies de aves marinhas que estão retornando, e que acompanham a trajetória dos navegantes; peixes saltando ao lado do caiaque; prainhas lindas encravadas nos costões rochosos; o vento no rosto e a sensação de liberdade. Eu, pequeno grão de areia, espírito que não se detém aos desafios todos.

No meu retorno lembrei dos Itararé e Guarani que aqui viveram. Cruzavam essas baías, esses braços de mar, e entendiam bem mais da natureza que nossa ciência excludente. Meu espírito está entre o mar e a montanha. Sou gancheiro porque apesar de nascer em São Bernardo do Campo (SP), meus ancestrais aqui chegaram há séculos e se adaptaram a esse lugar até serem partes intrínsecas dessa paisagem. Amo esse lugar de maneira desapegada. Dele me reabasteço sempre.

(*) escrito em 2008.

domingo, 26 de abril de 2009

Anhatomirim – alguns relatos –

Visitei Anhatomirim pela primeira vez em dezembro de 2005. Antes sempre houve vontade, mas nunca oportunidade. O fascínio pela ilha repetiu a visita outras vezes. Não posso compreender o que me atrai àquele lugar, mas certamente meu espírito reencontra palavras índias, memórias de antes, arte renascentista, natureza exuberante, e ossos de baleia. A ilha inspirou os poemas “Anhatomirim”, “Os contornos da APA do Anhatomirim”, “Anhatomirim e seus caminhos”, e a alavanca-mestra para a monografia “O trabalho penal: fator de auto-estima, valorização e inclusão social do condenado” – todos escritos de minha autoria.

Anhatomirim é um termo tupiguarani. A palavra “anhá” pode ser traduzida como “diabo” ou “cão”, mas cão em sentido pejorativo porque nos remete ao entendimento dos jesuítas que tentaram catequizar nossos nativos da nação Guarani. Os termos “to” e “mirim”, indicam respectivamente “toca” ou “cova”, e “pequena”. Portanto, a tradução mais sensata seria “pequena toca do diabo”. O nome surge, provavelmente, do medo incutido na mente dos padres jesuítas, e que, deveria ser transferido aos indígenas. Catequizar por meio do horror, do medo, do sentimento de vigilância. Esse sempre foi o Cristo pregado desde o barroco no Brasil em oposição a crença livre dos grupos indígenas que enxergavam um Deus como parte e essência do todo, principalmente na natureza, e participavam dele sem critérios hierárquicos ou de poder. Ressalva a ser feita. Mesmo dentro desse critério de vigilância, os jesuítas foram os mais ferozes defensores dos indígenas brasileiros.

Antes da grande Nação Guarani que se estendeu em todo sul brasileiro, havia passado no território que compreende Governador Celso Ramos, indivíduos não identificados por grupos ou nações que edificaram muitos sambaquis. Resta claro, porém, que os itararé do grupo lingüístico Jê, que antecederam os Guarani, na ordem cronológica da histórica também edificaram, assim como os Guarani seus sambaquis. O povoamento vicentista e depois açoriano foi edificado sob muitos sambaquis. Sambaqui é palavra que nos remete a muitas origens. É preciso apenas acentuar que se constituem de construções primitivas geralmente com restos de conchas e ostras. A presença hominídea em Governador Celso Ramos data os 5.000 anos.

A construção dos fortes como sistema de defesa no sul brasileiro não teve como escopo a defesa do povoamento luso-brasileiro instado na Ilha de Santa Catarina. A região atraiu diversos navegadores antes mesmo do descobrimento interessados pela pesca da baleia. A região constituía também de bom ancoradouro e reserva de mantimentos aos navegadores que viajavam para a região do Prata. É preciso mencionar que o efetivo lusitano ou luso-brasileiro era ínfimo sendo composto por bandeirantes paulistas de São Vicente e Cananéia que se aventuravam em busca de ouro, índios, e terras. Os territórios dessa região do país pertenciam a Capitania de São Paulo.

A fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim localizada no município de Governador Celso Ramos foi construída com elementos diversos. A cal, a areia, e o óleo da baleia provinham da região. A cal era buscada numa região batizada de caieira, muito próxima a fortaleza (hoje o bairro de Caieira do Norte), e a areia de uma planície que se estende em uma parte do Distrito de Guaporanga (hoje os bairros de Areias de Baixo, do Meio, e de Cima). O óleo de baleia provinha já nos primeiros momentos da construção do forte, dos cetáceos abatidos e manufaturados em Armação da Piedade. Portanto, de acordo com nossas pesquisas, e seguindo um raciocínio lógico, os trabalhadores que atuaram na construção dos fortes devem ter edificado um pequeno vilarejo ou casas na Caieira do Norte, ao tempo que chegaram os primeiros habitantes da Armação baleeira. Armação e Caieira são os lugares mais antigos do município. Os açorianos chegariam seis a oito anos depois do primeiro núcleo de povoamento da Armação da Piedade – os nomes dos habitantes serão divulgados em trabalho mais específico.

É plenamente compreensível que a construção de uma capela (a primeira do Estado após a destruição da existente ao tempo de Dias Velho na ilha de Santa Catarina) na Armação da Piedade tem motivações açorianas, embora o estilo seja luso-brasileiro. Povo reconhecidamente religioso exigiu a construção do templo católico em devoção a Nossa Senhora da Piedade como forma de viver num lugar inóspito como aquele. A Igreja sempre reuniu, além da fé do povo, festas, costumes e hábitos, servindo até mesmo para fortalecer a permanência dos viventes. A capela é edificada em 1745, enquanto o forte começou a ser construído em 1738. Os primeiros viventes, bandeirantes vicentistas, tinham uma obrigação militar e econômica.

Silva Paes, o brigadeiro que idealizou o sistema de defesa, era um homem inteligente, mas era mais estrategista do que político. Era de seu interesse que o governo da província de Santa Catarina fosse transferido da Ilha de Santa Catarina para São Miguel da Terra Firme, bem próximo da Ilha de Anhatomirim. É possível que se o rei de Portugal o tivesse ouvido o Brasil contaria hoje com os territórios do Prata. A idéia de Silva Paes era transferir a sede do governo dada a vulnerabilidade da Ilha, e implantar um sistema de defesa frontal na baía de São Miguel que tivesse, pelo menos, uma bateria de cinqüenta canhões. Somando esse efetivo bélico aos do Forte de Santa Cruz do Anhatomirim, Santo Antonio de Ratones, e do Forte de São José da Ponta Grossa (esse última ainda contava com a bateria de São Caetano com trinta canhões leves), o governo estaria resguardado das invasões. A Ilha de Santa Catarina, anos mais tarde fora invadida pela Espanha, e deu-se adeus a ocupação do Prata, dado a Espanha em troca de Santa Catarina.

A importância histórica de Governador Celso Ramos é imensa para o Brasil. Os despachos de Silva Paes colocam Governador Celso Ramos como sede da capital da província, a pesca da baleia torna a região a segunda economia do Brasil Colônia, palco de lutas sangrentas e exploração do capitalismo mercantil.

Minha primeira visita a Ilha inspirou o poema, em forma de prosa-poética, “Anhatomirim” instado na obra “Luz lembrada (Jyoti)”, publicada em 2007 pela editora da Univali, e a monografia “Trabalho penal: fator de auto-estima, valorização, e inclusão social do condenado”, de 2005. Ambos os textos buscam uma característica-inspiração notada nos porões, no calabouço da Ilha. Ali foram fuzilados ou enforcados nossos revolucionários federalistas de 1894, entre eles um ancestral meu o capitão João Evangelista Leal. Meu avô dizia que os comunistas, e os contrários ao regime de exceção de 64-84 (ditadura militar) eram levados para ilha. Meu avô, inclusive teve muitos amigos que “desapareceram” sob o regime.

Na íntegra a poesia…

ANHATOMIRIM

O sol queima o rosto,
como a chuva seca a alma.
Por companheira a lembrança,
a solidão, a dor da despedida,
e a visão restrita de uma ilha,
perdida na imensidão do atlântico sul.

É uma masmorra medieval,
moça ainda no tempo de sua existência.
Nas paredes espessas daquela prisão,
redigidas foram algumas preces,
repetidas aos mesmos santos,
em memória e no olhar vazio.

De súbito é uma torrente de ar,
que atrofia e faz o prisioneiro emudecer.
E é a paciência que comprime o tempo,
e não compreende sua resistência.
Ele quer voar, sair pelos poros dos muros,
através dos canhões, risos e baionetas.

As grades da prisão,
atravessam os olhos do prisioneiro,
junto ao bramido do vento,
que ao entrar sereno, pelos gradis,
recordam tempos imemoriais,
de uma terra sem males e fuzis.

Cantam, os ventos, palavras índias,
Herança Jê e Guarani,
provindas das cantigas e dos falares
das memórias e dos sonhos,
arremessados ao ar,
da Ilha do Arvoredo ao mar.

É quando os laços que sem dó,
e em nós, buscam artifícios,
entre as preces e as vozes dos capitães,
é que o respirar se torna o impulso da fuga,
atrofiando o último suspiro,
levando a alma pelos olhos.

Ao longe, amalgamados, entre as fardas,
as ordens, os ritos, o marulhar das ondas,
os ganidos de Anha e de qualquer bandido,
disparam também os tiros,
comendo a ferrugem e a carne,
descansando, em liberdade, o prisioneiro.

Numa paragem longínqua,
perdida na imensidão do atlântico sul,
num esquecimento e absoluto silêncio,
ficou para trás a ilha e a maldição de anha.
Porque a alma viajou serena,
misturou-se ao azul e infinito do mar.


Após outras visitas, inclusive pelo projeto “Multiplicadores do Anhatomirim”, em outubro de 2008, eu que sou conselheiro da APA do Anhatomirim redigi mais duas poesias que serão publicadas em breve, também outros escritos de cunho histórico definidos como ensaios. A ilha pertence a APA do Anhatomirim. A concessão para exploração turística para manutenção do Projeto Fortalezas da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. O Conselho da APA presidido pelo Instituto Chico Mendes para Biodiversidade tem a função de regular o crescimento e desenvolvimento da Área de Proteção Ambiental do Anhatomirim, incluindo a ilha.

Apesar do patrimônio histórico e paisagístico existentes na Ilha do Anhatomirim, o que atraí mesmo os turistas é a visitação aos golfinhos que atualmente estão na baía de São Miguel, em Biguaçu, e não mais na Baía dos Golfinhos em Governador Celso Ramos. Os ambientalistas alegam que o excesso de escunas afastou os golfinhos da região, enquanto alguns pescadores dizem que o arrasto do camarão trazia alimento pros botos. A explicação é que o arrasto poderia suspender nutrientes do fundo do mar servindo de alimento aos mamíferos marinhos. Os golfinhos ou botos também são chamados de Tucuxi (Sotalia fluviatilis fluviatilis) e não são os mesmos que visitam outras partes do município. Os tucuxis permanecem em número de quarenta animais no mesmo local. Nesse verão tive a primazia de observar mãe e filhote.

A TVBV (rede bandeirantes de televisão) fez cobertura para o programa “Nossa Terra, nossa gente”. Fui entrevistado por Bruna Berka que nos acompanhou a bordo do “Rei Sol” capitaneado pelo amigo Paulo. As imagens foram realizadas pelo cinegrafista Assis, que pode realizar excelentes tomadas. A rede de bandeirantes de televisão, inclusive, foi importante para fazer a determinação do Ministério Público Federal valer em solo gancheiro (gentílico de quem nasce e mora em Governador Celso Ramos). Os portões das propriedades particulares foram abertas por determinação da justiça, mas contaram com apoio da mídia. A ação proposta pelo MPF é parte da manifestação de muitos grupos ambientalistas, entre eles a Apremag – Associação de Preservação do Meio Ambiente de Governador Celso Ramos.

Quem vier a Governador Celso Ramos visite a ilha. Não apenas. Visite a região. Tente se transportar a épocas passadas. Épocas em que a cachalote, rainha dos mares do sul, lutava por sobrevivência sem interferência do bicho/predador/homem. Mais de três mil indivíduos foram cruelmente mortos. Hoje as cachalotes estão a 150km de nossa costa catarinense. Em terra, vamos lutando contra titãs: especulação imobiliária, poluidores, gananciosos predadores que não tem qualquer sentimento pela vida.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Ganchos: nem sempre o silêncio foi resposta

O livro “Brasil: nunca mais”, de D. Paulo Evaristo Arns, cita: “A imagem do brasileiro, conformado, acomodado, submisso, que sempre se procurou vender, não corresponde ao registro da história”. A repressão a artistas, idealistas, trabalhadores, e minorias foi cruel, mas vozes sempre denunciaram a violência do Estado, do capitalismo mercantil, industrial e neoliberal. O fascismo arraigado nos governos municipais age com truculência. A barbárie enrustida nos déspotas de gabinete usa o povo de escudo em defesa de erros fúteis, e as propagandas de desenvolvimento escondem ranços de corrupção e violência. Numa perspectiva local o município de Governador Celso Ramos sofreu revezes.

A primeira greve de Ganchos ocorreu na Armação da Piedade em 30 de julho de 1784. Pescadores descontentes com as condições de trabalho e agressões se rebelaram sob a liderança do arpoador João Pereira Ruivo. Brancos e negros lutaram juntos contra o exército e o capital mercantil. Massacre: mortes e prisões. Ruivo levado ao Rio de Janeiro foi condenado e torturado. Para que não houvesse rebeliões o governo a época passou a retirar das famílias membros para lutar no sul. O comércio de crianças feito por ingleses aqui era omitido pelas autoridades. “Não macular a imagem do Brasil frente ao mercado internacional” – era o lema!

Em 1905 paralisação no Porto de Ganchos. Resistência dos pescadores ao “dízimo do pescado”, que o Distrito de Armação e Ganchos pagava ao Município de Biguaçu. O movimento grevista foi duramente repreendido. Desta vez não se usou apenas da força, mas a penhora dos bens dos pescadores. Muitos faliram. Nos anos 1960 o deputado catarinense Paulo Stuart Wright organizou os pescadores artesanais e as colônias de pescadores. Anos depois a ditadura militar prendeu ilegalmente, torturou e o assassinou. O corpo nunca foi encontrado.

Em 1963 emancipação de Biguaçu. Não se deixou, porém, de ser um bairro afastado. A ditadura militar piorou a economia de Ganchos. Os recursos destinados aos artesanais foram para armadores destruindo a pesca artesanal. Política patrocinada pelo governo de Celso Ramos. Nos anos 70 o agricultor Pedro Wollinger e outros trabalhadores fundam o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Gov. Celso Ramos. O movimento sindical o lança candidato a vereador pelo MDB sob pressão da ARENA. As manobras governistas e oligárquicas, porém, sempre fizeram da terra um cativeiro. O sindicato pereceu.

Lassale dizia: “o povo é forte, mas desorganizado”. Freire na “pedagogia do oprimido” salientava o aprender com os próprios erros. Mas, continua-se observando em cada brasileiro o coronel da república velha: “autoritário e racista”. Essa condição se transfere aos governantes.

Em 1984/86 invasão da tropa de choque da polícia militar tentou sufocar a brincadeira do boi – é o começo da especulação imobiliária em Gov. Celso Ramos. A violência do Estado fez com que a população reagisse distorcendo a evolução da cultura. Nos 1990 e início dos 2000 houve diversas manifestações contra as caras tarifas de ônibus, e as condições de bem-estar dos transportes. Em 2008 quem ousa discutir o plano diretor “participativo” e buscar alternativas para Gov. Celso Ramos é rotulado “descontente”, “reacionário”, “anti-desenvolvimentista”, para não citar palavrões, ameaças, e perda de espaço. O gancheiro, mistura de muitos povos desde tempos imemoriais, corre o risco de ficar sem terra, mar, e identidade.

(*) Ensaio publicado na Antologia de prosa e poesia "Trajetória", da Academia de Letras de Biguaçu. As informações contidas podem ser pesquisadas nas obras de Celia Maria e Silva "Ganchos/SC: ascensão e decadência da pequena produção mercantil pesqueira", e na dissertação de mestrado do professor Joaquim Gonçalves dos Santos (UFSC).